Salmo:119.165;

Salmo:119.165; Grande paz têm os que amam a lei de Deus; para eles não há tropeço.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O OFÍCIO DA LEI E SEU USO , NA VISÃO CALVINISTA -


Por Ricardo CastroSicut scriptum est... O primeiro ofício da lei éadmoestar e repreender o homem por sua injustiça. Isso ela o faz ao demonstrara justiça de Deus, a que lhe é agradável e, ao fazê-lo não deixa dúvidas, até convencere condenar o homem.É necessário que o homemseja constrangido a conhecer e a reconhecer tanto a sua fraqueza deentendimento como a sua impureza, pois, de outro modo, permaneceria cego eembriagado pelo seu amor próprio. Quando, pois, ele, o homem, é posto à provapara saber se pode executar a lei de Deus, pela dificuldade que encontra, temocasião de ver abatido o seu orgulho, sua petulância, sua arrogância. Assim, segundoCalvino, por mais grandiosa opinião que o homem tenha, anteriormente, formadosobre si mesmo, sente-se agora debaixo de um fardo tão pesado que essapresunção acaba por vacilar, cambalear, decair e, finalmente, desfalecer detodo. Assim, conclui Calvino, sendo instruído pela doutrina da lei, o homem éafastado da sua presunção, a qual é própria da sua natureza.Enquanto o homem está presoao seu próprio critério, imagina, em ver de verdadeira justiça, uma hipocrisia,na qual tem prazer e da qual se orgulha. Essa hipocrisia é contra a graça deDeus, instalando-se à sombra sabe-se lá de quais observações inventadas por suamente. As concupiscências são tão ocultas, disfarçadas e enganosamenteenvoltas, que facilmente enganam a visão do homem. O fim de tudo isso é que, sea concupiscência não for revelada pela lei e tirada do seu esconderijo, feriráo infeliz homem sem que ele sinta coisa alguma. Assim podemos ver, claramente,que, a lei é como um espelho no qual contemplamos primeiro a nossa fraqueza,depois a iniquidade, que dela procede, e, finalmente, a maldição lançada sobreambas.A concupiscência cega ohomem, mas, a lei o desmascara e o convence de grande transgressão, assimtambém como também lhe mostra mais condenável e digno de maior castigo.Calvino, nas Institutas, tratandodo primeiro ofício da lei, cita as seguintes falas de Agostinho:“A lei nos ordena o quefazer a fim de que, esforçando-nos para cumprir os seus mandamentos e caindopor nossa fraqueza, aprendamos a implorar o auxílio de Deus.”“A utilidade da lei está emconvencer o homem de sua fraqueza e constrange-lo a solicitar o remédio dagraça  em Jesus Cristo.”“A lei manda, a graça dáforças para cumpri-la.”“Deus ordena o que nãopodemos fazer, a fim de que saibamos o que lhe devemos pedir.”O segundo ofício da lei éretirar da maldade, pelo constrangimento e ameaças, os que nela vivem. Os queassim vivem, não cuidando de fazer o bem a não ser por constrangimento eameaças, merecem todo o rigor e terror da lei. Essa justiça ou retidãoconstrangida e forçada é necessária à comunidade dos homens, cuja tranquilidadeo Senhor supre quando impede que todas as coisas se transtornem na maiorconfusão. Além disso, não é de todo inútil para os filhos de Deus serem elesregidos por essa forma pueril de doutrina, na época em que ainda não tem oEspírito de Deus, quando então vivem segundo a loucura da sua carne.O terceiro ofício da lei, oprincipal, relaciona-se com a finalidade para a qual foi dada e, tem lugar entreos crentes, em cujo coração o Espírito de Deus já tem o seu reino, o seudomínio e poder. Assim, a lei é para eles duplamente proveitosa: um bominstrumento para melhor e mais acertadamente entenderem, dia a dia, qual é avontade de Deus, à qual aspiram, e para que sejam confirmados em seuconhecimento. O cristão é como um servo que, embora tenha deliberado em seucoração que há de bem servir a seu senhor e de agradá-lo em tudo e por tudo,todavia tem a necessidade de conhecê-lo familiarmente e de conhecer os seushábitos e as suas condições, a fim de poder adaptar-se. E, segundo Calvino, nãohá quem possa isentar-se dessa necessidade; isso porque ninguém ainda chegou atertal sabedoria que não tenha como, pela doutrina cotidiana da lei, progredir diaapós dia e desfrutar mais clara compreensão da vontade de Deus.Tratando desse terceiroofício da lei, temos as seguintes afirmações de Calvino:“É bom acrescentar que, nãotendo nós somente necessidade de doutrina, mas também de exortação, o servo deDeus tem na lei esta utilidade: pela frequente meditação na lei, o servo deDeus será impulsionado à obediência a ele, será confirmado nela, e seráinduzido a abandonar os seus erros.” “Enquanto o homem espiritualnão for libertado do fardo da sua carne, a lei será para ele um aguilhãoperpétuo, para não deixa-lo adormecer e entorpecer-se na ociosidade.”Assim, considerando os trêsofícios da lei, o que devemos fazer da lei mosaica? Revogá-la? Segundo Calvino,são os ignorantes que rejeitam temerariamente a Moisés, por incapacidade dediscernir que o Senhor instrui os seus servos na doutrina da sua lei, quandolhes inspira interiormente a coragem para segui-la. E, ainda segundo Calvino, “ninguémpoderá negar que há na lei como que uma imagem completa da justiça perfeita,ou, do contrário, será necessário dizer que não devemos ter nenhuma regra dobem viver, ou que precisamos apegar-nos a essa”. Porque não existem muitas regrasdo bem viver, mas uma só, que é perpétua e imutável.E, finalizando, não há motivopara nos espantarmos com a fato de a lei exigir uma santidade verdadeiramenteperfeita que não poderemos ter enquanto estivermos na prisão do nosso corpo, aoponto de abandonarmos a sua doutrina. A lei serve, aos crentes, de exortação,não para prender a consciência deles à maldição, mas para despertá-los da indolência,estimulando-os, e par aos polir, corrigindo a sua imperfeição. A lei, quanto àsua natureza, não somente ensina, mas também exige estritamente o cumprimentodaquilo que ordena.Sicutscriptum est...Bibliografia utilizadas naconstrução deste artigo: - As Institutas, volume 1(João Calvino – Editora Cultura Cristã)(Há, no artigo acima, váriascompilações da obra acima, não havendo indicação por aspas ou referências, atodas elas. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessa obra e, assimlê-la.)

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