Salmo:119.165;

Salmo:119.165; Grande paz têm os que amam a lei de Deus; para eles não há tropeço.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O primeiro culto protestante das Américas


Essa história meuslivros dos tempos de escola não contaram; talvez por desinteresse, talvez porignorância... Mas o episódio ficou registrado pela historiografia dos povos queinteragiram com o desenvolvimento da história da nação brasileira. Pela importânciadocumental, pela coragem de vir tão longe pregar o Evangelho, pelo testemunhode fé, por tudo que representa e pode representar para a fé protestante noBrasil, desejo, sinceramente, que este episódio nunca mais seja esquecido.Como essa história começou              Oprimeiro Culto protestante das Américas foi celebrado, muito provavelmente, noBrasil. Justo no país que ficou historicamente tão marcado pela influência deuma colonização católica-romana-jesuita.               Emtempos remotos, poucas décadas após o controverso descobrimento destas terrasconhecidas como Brasil, houve uma tentativa de se estabelecer uma pequenacolônia francesa no Rio de Janeiro. Naquela época tanto os portugueses quanto osfranceses constantemente visitavam a costa[1]estabelecendo contato com os “selvagens” locais para negociar, principalmente,a extração do pau-brasil.              Esseprojeto colonizador, também conhecido como a França Antártica, teve suaspeculiaridades. O jovem aventureiro e vice-almirante francês Nicolas Durand deVillegaignon (1510 -1571), com o apoio do próprio rei da França Henrique II, aceitouo desafio de estabelecer uma colônia no Brasil chegando ao Rio de Janeiro em1555. O nível moral e religioso da recém-estabelecida colônia era preocupante;Villegaignon decidiu “importar” franceses de boa índole para influenciar os que por aqui já haviamchegado.               Villegaignonescreve uma carta[2] aum antigo conhecido, o reformador João Calvino, que envia 14 huguenotes (nomedado aos protestantes calvinistas na França) que chegam ao Brasil no dia 7 demarço de 1557. No grupo destaca-se a presença de 2 pastores e a do o jovem Jeande Léry (na época com 22 anos) estudante de Teologia, que atuou como sapateirona Colônia. Após o regresso dramático para a França Léry escreve a obra Histoire d’un voyage faict en la terre duBrésil publicado na Europa em 1578, que se tornou um livro de “viagens eaventuras de grande sucesso” no Velho Continente, rapidamente traduzido para olatim, alemão e holandês. No Brasil com o título Viagem à terra do Brasil, foi publicado em 1980 pela EdUSP. Esta éa principal obra que nos traz o relato dos protestantes (calvinistas) queperderam a vida em defesa da fé bíblica no Brasil Colonial. Nesta obra tambémestão registrados dois cantos tupis, que os historiadores consideram odocumento escrito mais antigo da música ameríndia.Calvinistas no Brasil Colonial parte I: O primeiro culto protestante              Apesarde o termo “missionário” ainda não estar em voga no vocabulário evangélico doséculo XVI, talvez este tenha sido o primeiro movimento missionário em direçãoao Novo Mundo. Motivados pela promessa de “fundar um puro serviço a Deus” esseshomens estavam dispostos a cruzar o Oceano, convictos de que sua finalidade era“anunciar o Evangelho na América”[3].              Acolhidoscom receptivas palavras de Villegaignon, os calvinistas chegaram ao Brasil numaquarta-feira, dia 10 de março de 1557,e neste mesmo dia realizam um culto descrito por Lérycomo em conformidade com ritual das igrejas reformadas da França[4]. Naocasião cataram o Salmo 5, e o pastor Pedro Richier, integrante dorecém-chegado grupo, realizou a pregação com base no Salmo 27 “Uma coisa peço ao SENHOR,e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida”. Não sabiam eles que haviam acabado derealizar “o primeiro culto protestante da história do Brasil e do Novo Mundo”.[5]Calvinistas no Brasil Colonial parte II: A primeira celebraçãoprotestante da Ceia do Senhor               Conformenos informa Jean de Léry, o almirante Villegaignon não apenas consentiu que serealizassem orações públicas todas as noites após os trabalhos de edificação doForte, mas também ordenou que os pastores pregassem duas vezes aos domingos,que os sacramentos fossem administrados deacordo com a pura Palavra de Deus, e que, se necessário fosse, se aplicassea disciplina eclesiástica. Por isso, no dia 21 de março de 1557, pela primeira vez foi celebrada a Santa Ceiade Nosso Senhor Jesus Cristo (nos moldes da igreja protestante), em territóriobrasileiro.Calvinistas no Brasil Colonial parte III: Um testemunho que entrou prahistória “A Confissão de Fé de Guanabara”              Parajustificar a condenação dos calvinistas por heresia, Villegaignon os forçou aresponderem um questionário. Aprisionados, de posse de uma bíblia, e em algumaspoucas horas, elaboram um documento que entrou pra história como uma das maisantigas e emocionantes confissões de fé cristã.              Odocumento “A Confissão de Fé de Guanabara” foi escrito em Latim com tinta feitade pau-brasil e é composto de 17 artigos enfaticamente iniciados, em grandeparte, com a expressão “Cremos...”.Tais artigos podem ser divididos nos seguintes temas: (1-4) Trindade e a pessoade Cristo; (5-9) Ceia e Batismo; (10) o livre-arbítrio; (11, 12) a autoridadedos ministros para perdoar pecados e impor as mãos; (13-15) casamento, divórcioe castidade; (16, 17) intercessão dos santos e oração pelos mortos.[6]              Algunspequenos detalhes nos chamam a atenção na elaboração deste documento: 1) JeanDu Bourdel, que foi o redator, apesar do conhecimento do latim, não possuía umaformação formal em teologia; era leigo. 2) O pouco tempo que tiveram paraproduzir o texto (aproximadamente 12 horas). 3) Pouco recursso disponível – umabíblia –, e a situação totalmente adversa: a prisão, a pouca luminosidade e apressão de saber que aquele documento representaria – talvez – a própriasentença de morte. 4) A familiaridade com os Pais da Igreja; são citados Agostinho,Tertuliano, Ambrósio e Cipriano. 5) A solidez teológica do documento que seharmoniza com as principais confissões da fé bíblico-reformada.Calvinistas no Brasil Colonial parte IV: Os primeiros mártires protestantesda história do Brasil              Oalmirante Villegaignon logo foi visto como um fingido, que inicialmente demonstrava piedade e disposição paraacolher com ternura paternal os calvinistas, mas logo submeteu os visitantes aum cotidiano de trabalhos forçados e condições de difícil sobrevivência. E,repentinamente, todo o fervor pela fé reformada se converteu em perseguiçãoreligiosa com radicais discordâncias, principalmente, acerca do sacramento daSanta Ceia; o almirante passou a, enfaticamente, advogar em favor dos dogmas docatolicismo romano, exigindo uma retratação dos calvinistas.              Parao almirante, Cristo estava fisicamente presente na Ceia, era necessário adicionarágua no vinho da Ceia, e sal na água do batismo. Calvino e seus seguidoresforam declarados hereges.              Paratentar escapar da crescente perseguição os protestantes franceses fugiram doForte e tomaram uma embarcação rumo a França. A superlotação do modesto navioquase provoca um naufrágio ainda na costa do Rio de Janeiro, e, temerosos, 5huguenotes (Pierre Bourdon, Jean Du Bourdel, Matthieu Verneuil, André la Fon eJacques Le Balleur) resolvem não seguir viagem. Encontrados por Villegaignon,são aprisionados para serem executados como hereges, mas antes lhes foi exigidodeclarar sua fé por escrito.               Naobra Los Mártires de Guanabara.Barcelona: CLIE, 1979 de John Gillies, encontramos uma das descrições maisemocionantes do martírio destes irmãos em Cristo:           Asituação, após a retirada dos encarcerados da prisão, se tornou mais tensa; nãosabiam para onde estavam sendo dirigidos, contudo tinham certeza de não estaremem caminho da casa do almirante, pois passaram reto ante a porta frontal eseguiam caminhando sobre as rochas rumo ao cume nordeste da ilha.           Estavamtodos cientes de que haviam arriscado suas próprias vidas ao terem escritoaquela confissão, mas pensavam que o máximo que poderia ter acontecido eraterem sido lançados ao cárcere por algumas semanas, e, no piro dos casos, oexílio; o que era destino comum àqueles que estivessem em desacordo com oalmirante.           A ordem de ficaremem silêncio não foi plenamente obedecida, ao invés disso, Bourdel começou acantar, uma paráfrase do salmo 100. Logo em seguida o almirante Villegaignonquestionou Jean Du Bourdel se ainda permanecia firme em suas idéias, este,porém, parecia mais firme que nunca e exortava-os a que permanecêssemos firmese inabaláveis e a que reconhecessem que no Senhor todo labor não seria em vão.            A uma ordem alguns grandes sacos foramcolocados à disposição dos algozes, sacos estes que o próprio La Fon havia costurado.Bourdel foi, de cima para baixo, ensacado e amarrado à cintura, conduzido até aponta do rochedo, e, com um forte empurrão, arremessado ao mar; caiu em água. Ogolpe do corpo na água foi possível de ser ouvido de cima do cume, onde estavamos outro que certamente teriam o mesmo destino.              Destepequeno grupo que resolveu não seguir viagem três (Pierre Bourdon, Jean DuBourdel e Matthieu Verneuil) foram executados sob as ordens do tiranoalmirante. Escrito por Rev.Adenauer LimaPostado por Adilson Marcos[1]É sabido que os franceses se faziam presentes na costa brasileira desde 1504;de forma dispersa e desorganizada contrabandeavam principalmente madeira (Vd.RODRIGUES, José H. História da Históriado Brasil: 1ª parte: Historiografia Colonial. 2ª Ed. São Paulo: CompanhiaEditora Nacional, p. 38). Tais incursões geraram dois grandes frutos: 1) Oestabelecimento de Forte Frances no Rio de Janeiro por volta de 1555; 2) Afundação da cidade de São Luís do Maranhão em 1612. Em ambos os casos apresença francesa foi rechaçada pelos colonizadores portugueses. [2]Para informes documentais mais precisos, consultar o artigo do Dr. Francisco L.Schalkwijk, O Brasil na Correspondênciade Calvino in: Fides Reformata,IX, n° 01, 2004.[3] LÉRY,Jean de. Viagem à terra do Brasil in: Coleção Reconquista doBrasil, (Belo Horizonte: Itatiaia & Edusp, 1980). p. 56.[4] LÉRY,Jean de. Viagem à terra do Brasil in: Coleção Reconquista doBrasil, (Belo Horizonte: Itatiaia & Edusp, 1980). p. 86.[5] Alderi Souzade Matos no texto de apresentação da obra A tragédia de Guanabara de Jean Crespin, p. 11.[6]Cf. Alderi Souza de Matos no texto de apresentação da obra A tragédia de Guanabara de Jean Crespin, publicado pela EditoraCultura Cristã em 2007. Nesta obra é possível encontra o texto integral da“Confissão de Fé de Guanabara”.

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